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Iniciativa Open Tuna abre dados da pesca de atum na costa brasileira

Objetivo é criar referência para a pesca industrial, combinando práticas para a pesca sustentável focadas na rastreabilidade e na transparência da informação

A primeira frota brasileira a ter os dados de mapas de bordo e rastreabilidade abertos em plataforma online pública, praticamente em tempo real, é a frota de espinhel de atum. A partir desta segunda-feira (19/4), as informações estão disponíveis no site Open Tuna , desenvolvido com apoio técnico da Oceana e da Global Fishing Watch.

A iniciativa, impulsionada por empresários exportadores de atum e criadores da Aliança do Atlântico para o Atum Sustentável, também reúne a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e as organizações não governamentais Projeto Albatroz e Projeto Tamar. O grupo se juntou para promover a sustentabilidade da pescaria por meio da modernização da coleta e sistematização de informações, transparência e adoção de medidas para melhorar as práticas a bordo visando reduzir as capturas acidentais.

“O Open Tuna visa, sobretudo, uma melhoria na gestão pesqueira, hoje travada pela falta de dados. A transparência nas informações de pesca facilitará o trabalho de pesquisadores e do próprio governo, contribuindo para consolidação de uma cadeia produtiva mais transparente e sustentável, com pescados de alta qualidade e rastreabilidade total da produção”, afirma o diretor científico da Oceana, Martin Dias.

MERCADO E ORDENAMENTO

De grande valor no mercado internacional, a pescaria do atum movimenta US﹩ 4 bilhões de dólares por ano, só no Atlântico Sul, gerando, somente no Brasil, aproximadamente seis mil empregos diretos e indiretos. O ordenamento pesqueiro em todo oceano Atlântico, incluindo o Mar Mediterrâneo, é realizado pela a Comissão Internacional para a Conservação do Atum do Atlântico (ICCAT).

“O projeto Open Tuna está liderando o caminho da transparência para um dos pescados mais populares do mundo, em um mercado onde a falta de transparência em frotas de água distantes às vezes esconde sinais de práticas de pesca ilegais ou abaixo do padrão. Esperamos que mais empresas e governos sigam o exemplo do setor privado brasileiro”, afirma a diretora da Global Fishing Watch, Margot Stiles.

Todos os anos, os governos dos países que realizam a pesca do atum nessa região devem enviar à Comissão dados como, por exemplo, o quanto foi capturado por suas frotas e distribuição de tamanho dos peixes capturados. Uma das principais fontes de dados são os formulários de mapas de bordo, obrigatórios para toda a frota atuneira. Esses dados são fundamentais para se quantificar o tamanho dos estoques de atum e para o estabelecimento de cotas de captura para cada nação. No entanto, o governo brasileiro não possui um programa de captação e envio desses dados.

Segundo o professor Bruno Mourato da Universidade Federal de São Paulo (USP), correspondente estatístico do Brasil na ICCAT, a falta de agilidade na compilação de dados estatísticos vem dificultando os trabalhos para fornecimento dessas informações. “Sem um programa nacional de estatística pesqueira, incluindo um Programa de Observadores de Bordo, e com muitos dados ainda sendo aportados pelo setor produtivo em formulários de papel, a compilação dos dados estatísticos a serem aportados pelo Brasil à ICCAT é excepcionalmente morosa. O envio de dados para a ICCAT seria muito facilitado caso tivéssemos um sistema de reporte de informações em formato digital”, afirma Mourato.

Com o Open Tuna, cria-se um novo modelo que permite obter dados confiáveis sobre as quatro principais espécies-alvo da frota de espinhel capturadas ao longo da costa brasileira: albacora bandolim (Thunnus obesus), albacora branca (Thunnus alalunga), albacora laje (Thunnus albacares) e espadarte (Xiphias gladius). A albacora bandolim é a espécie de atum de maior valor da região, muito valorizada na culinária japonesa, e responde por 53% das capturas. “A iniciativa é um piloto, mas o Open Tuna inova ao criar um modelo de referência, que deveria ser adotado para toda a frota brasileira”, defende Martin Dias.

O site também reúne informações sobre bycatch, que é a fauna acompanhante. São as capturas de espécies não consideradas alvos de pesca, mas que devem ser igualmente registradas nos mapas de bordo das pescarias. As informações dos mapas de bordo podem ser acessadas por filtro de busca, como capturas por municípios, espécies e períodos temporais.

GLOBAL FISHING WATCH

As áreas de pesca e a atuação da frota participante do Open Tuna foram voluntariamente abertos pelos empresários e disponibilizados na plataforma Global Fishing Watch, que monitora a movimentação de embarcações de pesca comercial do mundo todo. Os algoritmos da plataforma permitem identificar mais de 70 mil navios de pesca, bem como determinar o tamanho, a potência do motor e o tipo de pesca de cada barco, onde pescou e por quanto tempo.

A frota brasileira ainda não tem seus dados abertos na Global Fishing Watch. As primeiras embarcações a compartilharem seus dados de rastreamento são todas vinculadas ao Open Tuna. “Ao contribuirmos para registrar nossas produção em mapas de bordo digitais e abrir o rastreamento de nossas embarcações na Global FIshing Watch, mostramos nosso compromisso com a transparência e a legalidade de nossas operações”, aponta Rodrigo Hazin, um dos empresários fundadores da Aliança do Atum. “Dados abertos e digitais também vão contribuir para entrarmos num novo patamar, garantindo rastreabilidade integral de nossa produção, comprovando origem e qualidade do pescado”, complementa Hazin.

A tendência é que o Open Tuna crie um diferencial no mercado. Pescadores que operam de forma legal e respeitosa são rastreados de uma maneira fácil e aberta, mostrando sua conformidade com a legalidade. Com isso, operadores clandestinos aos poucos vão enfrentar maiores dificuldades, podendo ser identificados por meio da Global Fishing Watch por seus históricos de irregularidade ou de comportamento suspeito.

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