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Efeito Carl Sagan: o papel do divulgador científico em tempos de pandemia

Nas comemorações do Dia do Biólogo, celebrada em 3 de setembro, conheça um pouco mais sobre os profissionais que se reinventaram para divulgar seus trabalhos ao grande público

A pandemia trouxe inúmeros desafios à humanidade. E, como tudo nos últimos anos, a internet se tornou ferramenta fundamental para a informação (e desinformação) sobre os mais variados temas, principalmente aqueles ligados à Covid-19. Nota-se, também, que surgiu um interesse acentuado por temas relacionados à ciência. As novidades e os avanços dela nunca foram tão aguardados por um público que, até pouco tempo, não se interessava pelo assunto. Boa parte do interesse se dá também pelo amplo espaço que a grande mídia tem dado aos desdobramentos da ciência e a seus especialistas. A nova demanda aproximou – quem diria – os cientistas da sociedade. E muito se descobriu a partir desse encontro.

A presença de profissionais como médicos, biólogos e cientistas de dados na criação de conteúdo a partir da tradução de temas que antes pareciam inacessíveis ao grande público fez com que a divulgação científica tivesse uma importante valorização e transformou alguns desses especialistas em influenciadores digitais, os chamados “Science Influencers”. Dados monitorados pela plataforma Science Pulse revelaram que os principais perfis científicos nas redes mais que dobraram o engajamento, principalmente nas fases mais agudas da pandemia.

Para o mestre em Genética e Biologia Molecular e gerente de vendas da Eppendorf, Paulo Henrique Pereira Gonçalves, o biólogo nunca esteve tão em alta e com tanta visibilidade:

“As pessoas, ansiosas pela chegada de uma vacina, voltaram seus olhos aos pesquisadores nas universidades, institutos e empresas privadas. Houve muita expectativa, e com isso, o biólogo foi bastante valorizado. Sempre achei importante o papel do biólogo no desenvolvimento da pesquisa, seja ela básica ou aplicada. O que mudou de um tempo para cá foi a percepção da população em relação ao profissional”, afirma.

Ainda, segundo Paulo Henrique, o biólogo valoriza-se cada vez mais como profissional versátil e completo. E, com uma exposição maior na mídia, quem escolheu a Biologia tem muitos bons exemplos para se inspirar e espelhar suas carreiras. No entanto – destaca o profissional -, ainda é desafiador provocar o público leigo com assuntos relacionados à ciência. E é justamente nesse ponto que os divulgadores científicos têm feito a diferença:

“Acredito que o principal desafio é encontrar uma linguagem capaz de tornar o tema interessante ao mesmo tempo fazê-los entender determinado tema. Nesse sentido alguns divulgadores científicos presentes nas redes sociais fazem um trabalho brilhante. “Descomplicar” a ciência e torná-la acessível para todos é uma tarefa muito nobre e certamente contribui para que outras pessoas se interessassem pela carreira de biólogo”.

É notório que nos últimos anos a ciência vem ganhando destaque na mídia e na internet. Mas engane-se quem acha que o trabalho de divulgação científica é recente. A falta de espaço de outrora, somada a cortes orçamentários destinados à ciência, tecnologia e inovações, fizeram com que os cientistas buscassem financiamento para suas pesquisas. Dessa necessidade de “sair da caixa” surgiu o papel do divulgador científico, que faz o seu trabalho ser visível através de palestras, cursos, artigos jornalísticos e participações em rádio e TV. De um tempo para cá, todos os esforços estão voltados – e não poderia ser diferente -, aos conteúdos de internet. Como exemplos de divulgadores científicos de sucesso, podemos citar o médico Dráuzio Varella, o biólogo Átila Iamarino e o biólogo e astrofísico norte-americano Carl Sagan (1934-1996), criador da série de TV “Cosmos, uma viagem pessoal”, considerado um dos precursores do que conhecemos hoje como divulgação científica na mídia.

Apesar dos primeiros registros dos estudos da Biologia remontarem o século VI a.C., com Tales de Mileto, e dois séculos depois, com Aristóteles, seu reconhecimento como ciência se deu bem depois, entre os séculos 18 e 19. No Brasil, a especialidade é ainda mais recente. O primeiro curso de Ciências Biológicas do Brasil foi criado na Universidade de São Paulo (USP), em 1934, e ainda tinha o nome de História Natural. Somente na década de 1960 que o Curso de Ciências Biológicas veio a ter identidade própria em nosso país. O reconhecimento normativo dos profissionais biólogos passou a ter respaldo mais adiante, em 1979, com a sanção da Lei Federal nº 6.684 em 3 de setembro daquele ano. Por conta dessa conquista que o dia é dedicado a os profissionais que, literalmente, estudam a vida (bios = vida e logus = estudo). Pensando no futuro, Paulo Henrique espera que os próximos anos sejam de valorização ainda maior da profissão que escolheu:

“Espero que o pós-pandemia possa não só manter, mas aumentar essa conscientização da importância do biólogo. Que haja maior investimento na área e que tais recursos sejam bem geridos para que possamos colher os resultados no futuro”, conclui.

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