Apenas 5% da população brasileira fala inglês. Por quê?

Entenda porque o país ainda não tem um domínio mais profundo do idioma
O inglês é um idioma universal. Pessoas que o dominam podem visitar dezenas de
países ao redor de todo o mundo e ainda assim conseguir se comunicar, ainda que
essa não seja a língua oficial utilizada nestes locais.

Porém, mesmo com esse prestígio e a grande quantidade de lugares em que ele é
utilizado, o Brasil ainda não apresenta os melhores níveis. Um levantamento da
British Council mostrou que apenas 5% da população brasileira sabe se comunicar
em inglês, ou seja, 10,425 milhões dos mais de 208 milhões de habitantes.
Vamos entender melhor como é a proficiência dos brasileiros, bem como os motivos
que levam o país a apresentar tais números, mesmo com sua importância
internacional e o fato de o idioma ser ensinado nas escolas, e o que pode ser feito
para melhorar a situação.

Domínio do inglês em números
Além da estatística que vimos anteriormente, outras também chamam a atenção e
ajudam a entender melhor o nível de proficiência observado no país. Confira a
seguir, com as respectivas fontes dos dados:

– O Brasil foi o 41º colocado no ranking de fluência de inglês, atrás de outros
países da América Latina, como México, Peru e Equador. (British Council)
– Em outro ranking de países que falam inglês, feito com 1 milhão de adultos
que não o têm como idioma nativo, o Brasil também ocupou a 41ª posição,
atrás de Lituânia, Vietnã, Costa Rica, Indonésia e Taiwan. (English First)

– O nível de domínio do inglês que o brasileiro afirma ter costuma ser maior
que a realidade. De 37.389 candidatos em 12 estados brasileiros que
afirmaram ter inglês avançado ou fluente para escrita e leitura, provou-se,
depois de um teste de proficiência, que apenas 36% podem se classificar
assim, ou seja, menos de 21 mil candidatos. (Vagas.com)

– Colaboradores de empresas multinacionais no Brasil não fogem dos
números. 108 mil trabalhadores de 76 países foram entrevistados para fazer
um teste de inglês, e os 13 mil brasileiros que o realizaram tiraram uma nota
média de 2,95 do total de 10,0, o que colocou o país na 67ª posição.
(GlobalEnglish).

Como os números indicam, ainda há um longo caminho a ser percorrido para que o
inglês esteja presente entre os conhecimentos dos brasileiros, o que certamente
pode abrir oportunidades profissionais, acadêmicas e pessoais ao longo da vida.
Quais são os motivos que levam o Brasil a apresentar tais números?
Dois fatores importantes são a baixa quantidade do ensino do idioma nas escolas e
a não obrigatoriedade de seu ensino antigamente.
Baixa quantidade de ensino

A quantidade de aulas de inglês ministradas nas escolas públicas, frequentadas
pela maioria da população, não é a suficiente para se obter um bom nível de
aprendizado.

O Common European Framework of References for Languages (CEF) é um
documento interessante utilizado para descrever as conquistas de estudantes de
línguas estrangeiras na Europa e em outros países.
O CEF também é usado para avaliar os níveis de aprendizado de cada língua e,
assim, classificar os alunos de acordo com sua experiência. No inglês, de acordo
com a Cambridge English Language Assessment, cada nível corresponde ao
seguinte número de horas estudadas:
– A2 (pré-intermediário): 180-200
– B1 (intermediário): 350-400
– B2 (pós-intermediário): 500-600
– C1 (avançado): 700-800
– C2 (proficiente e acima): 1.000-1.200

Ao considerar que as escolas públicas costumam ministrar duas aulas de inglês por
semana, são 100 minutos semanais. O período escolar costuma começar no início
de fevereiro e terminar no meio de dezembro, ou seja, há em média 38 semanas,
descontando as férias de julho e feriados.

Isso resulta em 3.800 minutos de aulas de inglês por ano, ou seja, pouco mais de 63
horas anuais. Do 6º ano do ensino fundamental até o 3º ano do ensino médio, são 7
anos de aulas, logo, 443 horas de estudo, nível entre o intermediário e o pós-
intermediário.

Porém, essa avaliação é feita para um ensino contínuo, o que nem sempre se aplica
nas escolas públicas. Dessa forma, mesmo todo o aprendizado do ensino
fundamental e médio pode não ser suficiente para dominar o inglês.

Não obrigatoriedade de ensino
As duas primeiras versões da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
datadas de 1961 e 1971, não incluíram as línguas estrangeiras modernas no
currículo escolar, que na época compreendia português, matemática, ciências,
história e geografia.

Até então, era responsabilidade dos Conselhos Estaduais decidir o ensino de
línguas estrangeiras. Porém, em 1996, o 1º e 2º graus foram substituídos pelo
ensino fundamental e médio, além de outra mudança importante, que foi a
obrigatoriedade de ensinar uma língua estrangeira no ensino fundamental, embora a
escolha ainda fosse de responsabilidade das escolas.

No ensino médio, a mudança tinha sido para a obrigação do ensino de uma língua
estrangeira moderna, além da possibilidade de uma segunda língua optativa,
embora essas não tenham sido definidas.
Foi só com a reforma do ensino médio, sancionada em 16 de fevereiro de 2017, que
o inglês se tornou matéria obrigatória a partir do 6º ano do ensino fundamental
(correspondente à antiga 5ª série). Antes disso, as escolas poderiam escolher entre
inglês e espanhol.

O objetivo desta medida é aproximar os alunos brasileiros da realidade encontrada
no mercado, onde o inglês já não é mais um diferencial tão importante quanto antes,
passando agora a figurar como exigência para o preenchimento de diversas vagas.
Logo, as pessoas que estudaram nos períodos em que o ensino de inglês não era
obrigatório podem não ter tido contato com o idioma, o que por sua vez influenciou
em sua vida profissional e acadêmica, bem como nos resultados dos testes aos
quais possivelmente foram submetidos, como as pesquisas vistas anteriormente.
Como será o futuro do ensino de inglês no Brasil?

As medidas propostas pela reforma do ensino médio podem ajudar no contato dos
brasileiros com a língua inglesa, mas isso nem sempre será suficiente para ter um
conhecimento completo sobre o assunto, o qual pode ser complementado com
cursos de idiomas.

Essa movimentação do governo é um bom indicativo, já que está alinhada às
necessidades do mercado, onde o inglês é praticamente obrigatório para conseguir
uma boa colocação profissional.

A globalização que se observa em todo o mundo também pode servir como
incentivo para aumentar o interesse pelos estudos de inglês, ainda mais com a
tecnologia disponível atualmente, que pode aproximar a população do idioma.
Hoje em dia, trabalhar em uma empresa de tradução é uma oportunidade para
uma parcela limitada da população, que teve a possibilidade de investir no estudo
de idiomas ao longo de sua carreira.

Quem sabe, em um futuro próximo, o número
de candidatos aptos a preencher tais vagas seja maior e os níveis de conhecimento
do inglês também aumentem, o que seria benéfico a todas as partes.